23 abril 2014

Conversas ao meio dia com Valéria Alencar

Olá leitores do AEOL.

Hoje vou falar sobre uma das propostas expositivas, ou de leitura, ou de mediação, ou de intervenção… (não sei como chamar ainda, vocês podem me ajudar depois) que mais me chamou a atenção aqui em Londres, no Museum of London, uma proposta ao mesmo tempo expositiva e educativa, uma ideia simples que, se não é possível fazer da mesma forma, é possível adaptá-la, daí fica uma sugestão, uma dica…

No geral, as visitas e atividades com grupos escolares que pude acompanhar aqui em Londres se assemelham muito ao que pode ser chamado: visita palestra, uma mediação discursiva, ainda que o educador tente dialogar, é aquela pergunta confortável, ou seja, da resposta esperada, foi assim que vi no British Museum, na National Gallery e no próprio Museum of London, mas o que vou apresentar aqui foi algo que vi como visitante, ainda que a mediadora e a pesquisadora sejam parte de mim, foi na minha primeira visita a este museu, sem saber  nada a respeito, que me surpreendi.

Vale destacar aqui que o Museum of London foi o local onde encontrei abertura para realizar minha pesquisa de campo, o pessoal do Learning Department (como se chama aqui o serviço educativo dos museus) foi sempre muito atencioso comigo.

O Museum of London, criado na década de 1970, tem a proposta de contar a história da cidade de Londres, de uma forma que enaltece a cidade e o Londrino, sério mesmo, ao final da minha primeira visita lá, saí com a ideia que aqui é a melhor cidade do planeta, ou seja, o discurso expositivo atingiu seu objetivo (rs). Existem dois prédios com exposições, entrada franca, e um prédio com o acervo arquelógico, que também é possível visitar, agendando e pagando, abre para grupos pequenos em visitas temáticas, é bem bacana e não é caro, vale a pena.

Os dois espaços expositivos contam histórias diferentes da cidade, o prédio Museum of London Docklands, é um pouco menor, fica no lado leste, região das docas, foi pobre um dia, é a região onde Jack estripador fez suas vítimas, aliás, tem uma visita sobre isso, bem interessante. Mas vou falar sobre uma exposição no outro prédio, na sede do museu, no centro da cidade. A exposição se chama “Our Londinium”. Londinium era o nome da cidade na época do domínio romano, sim o romanos chegaram até aqui e até mais longe ao norte, o acervo do museu sobre esta época da cidade é bem grande. A exposição em questão foi criada com a colaboração de jovens de diversas identidades culturais, entre 14 e 24 anos, “reinterpretando o que os romanos deixaram para trás e questões de como os londrinos de hoje podem ser iguais ou diferentes do habitante de Londinium” (texto de parede da exposição). 

Como eu vi tudo isso? Formas de leitura de objetos, os jovens que participaram deste processo, ao meu ver, dialogaram de fato com o acervo.


Jarra, 330-420 d.C., encontrada em escavações no aeroporto de Heathrow. 
Antigamente usada para colocar cerveja como oferenda aos deuses, encontrada num poço abandonado. 
E as garrafas de água como reinterpretação do objeto. 
Foto: Valéria Alencar, Out./2013.


Minha leitura da vitrine como um todo, se me é permitido fazer aqui, “deixada para trás” foi a jarra e deixadas para trás são as garrafas de água que não podem passar no raio-x do aeroporto… Claro, essa leitura minha é de hoje, contaminada por algumas viagens e garrafas abandonas… na época só associei ao fato de recipientes para conter líquidos. Mas, o ponto é, os jovens que “leram” o objeto o fizeram a partir de um referencial, a exposição me dá mais possibilidades de leituras.

Outro exemplo:


Dado de pedra, 100-200 d.C. Encontrado em Guy’s Hospital, Southwark. 
Foto: Valéria Alencar, Out./2013.

Além da sala “Our Londinium”, algumas intervenções, leituras de objetos ao meu olhar, foram colocadas em outras vitrines do museu, devidamente identificadas pela cor da legenda, como na vitrine sobre transporte:



Foto: Valéria Alencar, Out./2013.



Mais um detalhe, na legenda é posta uma questão para pensarmos a relação passado/presente. Não sei se são as melhores questões, poderiam ser outras talvez, de qualquer forma, são possibilidades de reflexão, como na vitrine “Age of convenience”:



Foto: Valéria Alencar, Out./2013

Possibilidades foi o que tirei disso tudo, possibilidades do mesmo exercício em outros locais, esse exercício de leitura, ou de mediação, ou de intervenção…


Valeria Alencar

4 comentários:

miriancelestemartins@gmail.com disse...

Jovens curadores criando diálogos, problematizações, causando estranhamentos? Garrafa de água e bilha? Dado romano e digital?
Fantástico, Val!
Daria um bom projeto em sala de aula, mesmo que com reproduções, numa visão rizomática do tempo, da cultura, das necessidades humanas.
Obrigada por partilhar!

Valéria Alencar disse...

Pois é, pensei muito nessa proposta como formas de leitura de objetos e imagens, ao invés de palavras, ou para além delas, outros objetos e imagens... é um exercício bem interessante...

Claudia Luz Ollé disse...

Gostei muito Valéria Alencar, sou arte educadora de Dourados MS, trabalho com formação de professores na UNIGRAN no curso de Artes Visuais, é sempre enriquecedor conhecermos trabalhos que instigam novas leituras e possibilidades.

Neto disse...

Val, gosto imensamente de pensar a história a partir do tempo presente e do espaço vivenciado. bj